WEBAULA: UM GÊNERO TÍPICO DE ESCRITA COLABORATIVA


WEBAULA: UM GÊNERO TÍPICO DE ESCRITA COLABORATIVA

 

Joas Moraes dos Santos1

 

As tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs), especialmente a partir dos recursos disponíveis pela Web 2.0, e segundo ARAÚJO e HISSA (2019. p. 166), permitem alternância dos papéis de autor e leitor (em um processo de permanente reversibilidade discursiva), principalmente em razão da multiplicidade de linguagens – escrita, áudio, imagens, vídeos etc. – presentes nos textos multissemióticos que circulam na rede www. Ainda segundo ARAÚJO e HISSA, essa possibilidade multissemiótica apresentada pelas TDICs, abre espaço para múltiplas formas de interação, que são facilmente percebidas no cotidiano, quando se está, ao mesmo tempo, lendo algo em uma rede social como o Facebook, vendo fotos de amigos no Instagram, escutando tutoriais ou escrevendo comentários nas postagens do Twitter. Todas estas “habilidades” se dão pela potencialização da multimodalidade, da multissemiose, da multiculturalidade e da multilinguagem a partir de recursos das tecnologias digitais da informação e da comunicação.

No âmbito escolar (Ensino Fundamental e Médio), considerando-se essas possibilidades multissemióticas e novas práticas sociais de leitura e de escrita, surgiram novas discussões sobre letramentos (novos, multi), e neste momento, onde a Pandemia do COVID-19 impôs a todos os Sistemas de Educação do mundo, tanto público quanto privado, um distanciamento social, fechando as Escolas e impossibilitando o Ensino Presencial, a utilização das TDICs  são apresentadas como uma das possibilidades de continuidade do processo Ensino-Aprendizagem curricular formal.

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1   C.Ed.O. da GENESISTECH SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS LTDA, Professor da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão e aluno do Mestrado Profissional em Letras – 2019-2021- PPGLe/PROPGI/UEMASUL.

 

O gênero webaulaé uma aula que acontece via web. Como um gênero textual próprio de ambientes virtuais, a webaula apresenta características típicas dos textos constituídos nesse espaço de interação e é uma das interlocuções principais do ensino a distância (ARAÚJO; HISSA, 2016).

Em função de sua importância no contexto da EaD, ARAÚJO e HISSA afirmam que a produção da webaula –levando-se em conta seu próprio conteúdo, as tarefas e atividades propostas associadas a ela; os recursos multimodais interativos utilizados e o tom dialogal utilizado na escrita – devem ser feitas de forma a promover a realização do projeto de dizer pensado pelos (inter)locutores responsáveis pelo processo de escrita e a auxiliar na leitura/compreensão de texto didático pelos interlocutores finais, os estudantes, com interação remota. Do contrário, corre-se o risco de se desenvolver uma webaula repleta de recursos multimodais e hipertextuais que pouco facilitam a aprendizagem de alguns estudantes.

Em estudos anteriores ARAÚJO e HISSA (2014; 2016) categorizam as fases e as etapas de produção de uma webaula3, além de sistematizarem o processo de produção didático-digital-colaborativo no contexto da Educação a Distância. Categorizam todo o processo em três fase: fase de produção individual, na qual o especialista do conteúdo da webaula escreve o texto de forma similar a um capítulo de livro acadêmico-didático; fase de produção mediada, em que se inicia o trabalho de escrita colaborativa, de revisão mediada e de negociação de sentidos feito por uma equipe multidisciplinar com base no texto produzido na fase individual; e fase de produção hipertextual, em que os recursos hipertextuais serão acrescidos ao texto produzido na fase de produção mediada.

Para refletirmos sobre o designing4, tomamos a fase de produção individual como foco de nosso estudo, sobretudo no que diz respeito às formas de construção possíveis a partir da construção de Professores que escrevem texto-aula para conteúdo específico. Analisamos tanto as possibilidades de produções didáticas, como os possíveis diálogos na escrita do material didático e as possibilidades de interações entre os sujeitos, a fim de conhecermos as estratégias de escrita individual (design disponível) e de revisão colaborativa possível que sujeitos utilizarão neste contexto enunciativo (designing).

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A concepção de gênero adotada neste trabalho tem como base a perspectiva sócio-histórica e dialógica (BAKHTIN, 2011) e a perspectiva sociorretórica/sócio-histórica e cultural (BAZERMAN, 2007; 2005).

Produção Didática Individual: etapa da Textualização; Produção Didática Mediada: etapa da Revisão; e Produção Didática Hipertextual: etapa da Retextualização Hipertextual.

Neste escrito, a fim de analisar o processo de produção do gênero webaula, identificamos, a partir da ação dos sujeitos envolvidos na escrita, as formas como eles podem interagir e como farão a orquestração da negociação de sentidos no processo de designing. Para isso, reunimos um corpus de análise com 25 webaulas5 do Ensino Fundamental de uma Rede Municipal de Ensino, em todas as suas versões (on-line), até se converterem na versão final de webaulas para serem publicadas na Plataforma GEDUC6. A fim de exemplificar um processo de produção de uma webaula, descrevemos brevemente como se dá a produção de material didático-digital na Plataforma GEDUC. Em princípio, a escrita de uma webaula segue um fluxo de produção semelhante ao fluxo de produção de aulas presenciais (planejamento da aula, escrita conteúdo a ser trabalhado, edição e revisão, a grosso modo). Há, porém, diferenças entre estes processos. Uma das diferenças é a forma de avaliação das estratégias de textualidade presentes no texto-base7.

A avaliaçãé feita por meio de interferências textuais marcadas no texto e revelam a concepção que os sujeitos (Professores) têm sobre a escrita de um texto didático-digital como a webaula. Vejamos na figura 1 como se dão essas interfaces na materialidade do texto.

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5 As webaulas analisadas foram elaboradas pelos Professores de diversas disciplinas das Escolas de uma Secretaria Municipal de Educação, com a possibilidade de ação colaborativa dos Coordenadores Pedagógicos.

6 Plataforma para elaboração, execução e avaliação de aulas não presencias da GENESISTECTm do selo

7 As observações sobre o processo baseiam-se no que foi analisado na produção de webaulas na Plataforma GEDUC, o locus da pesquisa. A descrição que apresentamos aqui é, portanto, de um caso, o que pode diferir de outras formas de produção do gênero (mais simples ou ainda mais complexas).

Figura 1 – janela de acesso no endereçwww.geduc.com.br   no processo de escrita da webaula

Fonte: Dados da pesquisa.

O início do processo acontece a partir do acesso ao endereçwww.geduc.com.br  e segue da seguinte forma: logo que  a janela da figura 1 estiver disponível o Professoro deverá clicar na opção PROFESSOR para ter acesso ao preenchimento do formulário de credenciais de acesso.

Figura 2 – formulário para preenchimento das credenciais de acesso a Plataforma GEDUC

Fonte: Dados da pesquisa.

Após acesso ao formulário de credenciais o Professor deverá preencher com as informações requeridas: Estado, Município, Usuário e Senha. Após inserir as informações de acesso o Professor entrará em um ambiente exclusivo, onde poderá iniciar o processo de design da webaula.

Figura 3 – janela exclusiva do Professor com informações de suas turmas

Fonte: Dados da pesquisa.

Ao confirmar as credenciais, a Plataforma GEDUC disponibilizará uma janela com os dados exclusivos do Professor, onde o Professor terá acesso as informações das turmas vinculadas ao seu login. Nesta janela o professor deverá clicar na opçãAula não presencial.

Figura 4 – janela com a opção de cadastrar aulas

Fonte: Dados da pesquisa.

A figura 5, apresentada logo abaixo, dará ao Professor uma lista de webaulas já salvas, bem como a opção de cadastrar nova aula, bastando para isto clicar no botãNova Aula localizado no canto superior direito da janela.

Figura 5 – janela com lista de webaulas e opção de Nova Aula

Fonte: Dados da pesquisa.

Após clicar na opçãNova Aula, a Plataforma GEDUC disponibilizará uma janela de boas-vindas, com um um vídeo tutorial Geduc  Aula não presencial  Módulo Professor onde o Professor terá poderá assistir todos os passos para design sua webaula(Figura 6). Para iniciar o processo de design de sua webaula, o Professor deverar clicar no botã Iniciar o Processo.

Figura 6 – janela de Boas Vindas com módulo tutorial Geduc Aula não Presecial  Módulo Professor

Fonte: Dados da pesquisa.

Após clicar na opção iniciar processo, a Plataforma GEDUC disponibilizará a janela de cadastro da webaula (Figura 7), onde o Professor irá preencher todos os dados cadastrais, tais como: Bimestre, Nome da Aula, Carga Horária, Data prevista, Data de Publicação, Data de Entrega, Componente Curricular, Turma, Objeto de Conhecimento e Referência. Depois deste processo é só clicar no botãPróximo.

 

Figura 7 – janela de cadastro da webaula.

Fonte: Dados da pesquisa.

Após clicar no botãPróximo, a Plataforma GEDUC disponibilizará a janela de design do conteúdo da webaula no menu Tópico, conforme figura 8.

Figura 8 – janela no menu Tópico.

Fonte: Dados da pesquisa.

Na janela do menu Tópico, o Professor terá a lista de todos os tópicos cadastrados para está webaula, e poderá inserir quantos tópicos julgar necessário para o design da webaula, clicando no botãNovo Tópico (Figura 8).

Ao clicar na opçãNovo Tópico o Professor deverá incluir o corpus da webaula, e também poderá inserir links de sites ou vídeo, e anexar até dois anexos de arquivos complementares ( Figura 9).

 

Figura 9 – janela de design da webaula, no menu Tópico.

Fonte: Dados da pesquisa.

Após cadastrar o tópico, o Professor terá a possibilidade de cadastrar um outro tópico, cliclando em Novo Tópico, ou iniciar a edição da atividade, clicando no botãsalvar.

Após clicar em salvar, a Plataforma GEDUC abrirá a janela de cadastra de atividade, onde o Professor poderá inserir questões de múltiplas escolhas ou discursivas, no menu Questionário, conforme figura 10.

 

Figura 10 – janela de design da webaula, no menu Questionário.

Fonte: Dados da pesquisa.

O texto-base de uma webaula, na Plataforma GEDUC (design), é finalizado pelo professor conteudista8, o original escrito segue para outros sujeitos (Coordenadores Pedagógicos ou Gestores Escolar), que irão lê-lo, avaliá-lo e/ou dá orientações para o Professor reescrevê-lo a partir de uma constante interlocução escrita feita em versões desse mesmo texto-base (designing). As interlocuções, por sua vez, seguem um percurso cheio de idas e vindas de versões do material didático, que, no caso da instituição em que foi feita a pesquisa, é composto de webaulas (na web), cuja produção envolve diferentes sujeitos, cada um em sua área específica e com uma função determinada dentro do processo de  elaboração do material.  As avaliações e interferências feitas pelos profissionais da equipe de produção no texto-base dão início a um processo de negociação   de sentidos no próprio texto didático (fase de produção mediada), e podem ser lidas e vistas por todos os sujeitos que produzem o texto.

Como vimos por meio da análise dos textos na etapa da revisão mediada, repensar as premissas dos multiletramentos aliadas à prática de escrita colaborativa, com o objetivo de sugerir novas práticas de produção, novos designs, seria uma boa iniciativa para o ensino de produção de textos. Esta relação entre multiletramentos e escrita colaborativa permite aos sujeitos (estudantes e professores) conhecerem novas formas de aprendizado a partir, por exemplo, da produção de gêneros do ambiente digital. Tal prática ajudaria a revelar que a proposta dos multiletramentos representa uma possibilidade pluralista para a sala de aula, pois não prevê a descrição de práticas-modelo, ou algo específico a ser seguido, mas sim, uma variedade de opções de produção a partir do conceito de design e designing.

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8 O professor conteudista é o especialista na área de que trata uma disciplina, que, por sua vez, é composta de aulas, no material impresso, e de webaulas, no AVA. É então o professor autor o docente responsável pela escrita do conteúdo de uma determinada disciplina das aulas não-presenciais do ensino básico).

 

Referências

 

AZEVEDO, Isabel Cristina Michelan de, COSTA, Renata Ferreira. Multimodalidade e práticas de multiletramentos no ensino de línguas / Isabel Cristina Michelan de Azevedo, Renata Ferreira Costa (organizadoras). São Paulo: Blucher, 2019.

BAKHTIN, Mikhail Mjkhailovitch. Estética da Criação Verbal. 6. ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BAZERMAN, Charles. Escrita, gênero e interação socialSão Paulo: Cortez, 2007.

BAZERMAN, Charles. Gêneros Textuais, tipificação e interação. Organiza- ção de Ângela Paiva Dionísio e Judith C. Hoffnagel. São Paulo: Cortez, 2005.

GNL - Grupo Nova Londres. A pedagogy of multiliteracies designing social futures. Harvard Educational Review, v. 66, n. 1, p. 60‐92, 1996.




RESUMO

As tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs), especialmente a partir dos recursos disponíveis pela Web 2.0, e segundo ARAÚJO e HISSA (2019. p. 166), permitem alternância dos papéis de autor e leitor (em um processo de permanente reversibilidade discursiva), principalmente em razão da multiplicidade de linguagens – escrita, áudio, imagens, vídeos etc. – presentes nos textos multissemióticos que circulam na rede World Wide Web - www.

O gênero webaula2 é uma aula que acontece via web. Como um gênero textual próprio de ambientes virtuais, a webaula apresenta características típicas dos textos constituídos nesse espaço de interação e é uma das interlocuções principais do ensino não presencial.

 

PALAVRAS CHAVE

WEBAULA, GENERO TEXTUAL, ESCRITA COLABORATIVA